Poesia Viva: orelha do livro “Enquanto alimento pássaros” de Sônia Morel

O texto a seguir é a orelha que escrevi para o livro Enquanto alimento pássaros (Patuá, 2019) de Sônia Morel, que pode ser adquirido aqui: https://www.editorapatua.com.br/produto/103052/enquanto-alimento-passaros-de-sonia-morel

 

***

 

O que se descortina em Enquanto alimento pássaros de Sônia Morel é uma paisagem interna, cenário de uma intensa poesia da existência. A partir da contemplação de uma natureza familiar, quase doméstica, o ser se reconhece, se sente acolhido: “sob o céu crepuscular/seguida por sabiás/encontro meu instante/abençoada por garças/e biguás”. Mas o estranhamento de si também é às vezes experimentado diante das visões que se admira: “a batalha de céu e nuvens/céu bipolar/minha guerra particular”. Numa verdadeira sinfonia de pássaros e insetos, a poeta ainda percebe a comunhão existente entre as criaturas enredadas no processo de perpetuação da vida: “o pássaro canta/a dor da árvore/vergada de frutos”. Nessa relação litúrgica com os fenômenos naturais, não é de se estranhar que até mesmo os deuses telúricos sejam invocados para participar da celebração dos sentidos: “frutos maduros/perfumam a terra/abelhas zunem/na festa/de Pomona e Vertuno” ou ” a natureza explode em frutos/éden de pássaros e abelhas/Dioniso no jardim/os olhos/espelhos de lágrimas/refletem a beleza/rios apartados da fonte/na correnteza”.

Uma revisitação da infância se evoca nesses versos cheios de lirismo, em que se localiza a origem da experiência poética na criança que sobreviveu no interior da poeta: “no retrato em branco e preto/a menina sorri/pega de surpresa/no canteiro de alecrim/sorrio de volta à criança que fui/guardiã de memórias/poesia em mim”. A passagem do tempo é mais uma vez apreendida ao se mirar no espelho, atividade corriqueira que é comparada a uma vivência mística por refletir, na própria imagem, o confronto entre divindades associadas à geração da vida e à morte: “à beira do abismo/fratura do tempo/Deméter e Perséfone/contracenam/diálogo ancestral/no espelho”. Além disso, uma atitude demiúrgica também se estabelece em relação ao fazer poético, entendido como o ato de criar poemas a partir dos elementos que se tem à disposição no momento, mesmo que pareçam substâncias já desgastadas: “de folhas secas/restos e penas/também se faz poemas”. Assim, a refinada poesia de Morel se funda na associação entre poética e religiosidade, essa última compreendida como o sentimento de devoção diante da vida e das vicissitudes que a acompanham.