Comentários sobre o conto “Subterrâneos”

Comentários elaborados por alunas do terceiro ano do curso de Português-Inglês da UFMT a respeito do conto “Subterrâneos” de Divanize Carbonieri, presente no livro Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2019).

 

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Após a leitura, o que se sobressai à minha mente é o desconforto por parte da protagonista acerca de seu corpo, assim como o que havia sido feito com ele. Os subterrâneos imaginei serem as pessoas que possuem alguma anomalia em seus órgãos sexuais, sendo a garota anteriormente parte dessa classe de “robôs nus”. O mais intrigante a meu ver são as descrições dos procedimentos realizados pelas pessoas de jaleco e o impacto causado na jovem, levando-a à putrefação, devido ao dano físico e às lembranças do ocorrido. Sinto ao ler o conto um desconforto curioso incrível e confesso que, ao finalizá-lo, precisei de um tempo para digerir todas as ideias e sensações.

Fernanda Rolon

 

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Minha primeira impressão ao ler o conto me remeteu a que o ambiente apresentado é hostil, em que tais robôs são explorados de toda e qualquer forma  por “doutores” que não respeitam os corpos e somente se pautam por seus interesses medicinais. Tais robôs são apresentados como máquinas, no entanto, pode-se interpretar metaforicamente que eles são pessoas vistas como cobaias, corpos sem vida, no sentido de que os doutores não se importavam com a identidade deles. A personagem representada no conto se mostra violada ao ser também parte do experimento, pois possui, de certa forma, alguma anomalia que a faz se sentir putrefata, decadente. Porém, este procedimento a fez ir à superfície, o que pude identificar como um plano de aceitação social. No entanto, ela não se conformava com sua violação e veio a se deteriorar, assim como o ambiente subterrâneo.

Hellen Silvany dos Santos

 

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Relata a história de uma personagem que foi submetida a uma operação de reparação de sexo. Ela revela a sua profunda dor por ter passado por tais procedimentos que foram capazes de deixar sequelas inesquecíveis, ainda ocorridas na infância. A chegada da adolescência foi ficando mais difícil porque ela se sentia fraca, e seu desenvolvimento não era normal como de outras crianças. Houve o determinado tempo em que tudo se desvaneceu e aquilo deixou um espaço oco no seu corpo e mente porque aparentemente ela já não sentia vontade de se relacionar com alguém, era algo que para ela não fazia falta e de que não precisaria. Esse conto nos conta o quanto uma passagem por um procedimento médico pode deixar danos em alguém, ainda mais quando se trata de algo sem consentimento e sem a mínima noção do que a pessoa será obrigada a passar. Esse caso pode ser comparado a inúmeros casos de abusos médicos, quando mulheres vão para consultas médicas e por vezes são vítimas de doutores abusadores.

Amanda Silva de Souza

 

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Ao ler o conto “Subterrâneos’ inicialmente me vi lendo um suspense semelhante ao enredo daqueles livros, que nos primeiros momentos de leitura me fazem sentir uma agonia, surgindo perguntas como “meu deus, o que estão fazendo?”, e eu só quero ler mais rápido para saber logo o final, mas também quero ler devagar e com atenção para assim compreender o que os meus olhos leem e meu raciocínio tenta entender. Tudo isso, junto com meu coração acelerado e aflito, pois o que essa personagem está sentindo e passando é tão pesado (emocionalmente falando) que eu nem sei descrever e como de fato deve ser assustador ser submetida a tal invasão ao seu corpo e a sua personalidade, tirando dela seu direito de ser ela mesma, de se reconhecer, de relacionar-se com seu próprio corpo. O conto termina com a autora (maravilhosa) descrevendo o estado emocional da personagem como “definitivamente soterrado, restando apenas a cabeça acima da superfície”. Essa obra literária nos leva a refletir sobre o quão necessário é a sociedade  mudar sua concepção de gênero e sexualidade.

Kylz Meireles

 

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No conto “Subterrâneos” da escritora Divanize Carbonieri, notamos, desde o início, um ar misterioso e de censura, em que as pessoas de jaleco branco não deixam as que estão sem roupa, ou melhor, que os robôs nus sejam livres para viver suas vidas, sem exames invasivos diários, vivendo uma vida em prol dos experimentos científicos. Conforme o desenrolar da leitura, nós leitores, conseguimos sentir a agonia que a narrativa traz e, até mesmo, sentir aversão pelas atitudes dos médicos, que ultrapassam os limites do exame e caem no campo do abuso de outro corpo, refletindo o que, frequentemente, acontece dentro da sociedade em que vivemos, em que em diversos consultórios médicos, principalmente de ginecologistas e obstetras, o toque excessivo das genitálias e diversos exames com materiais desconhecidos, ditos como exames rotineiros, são na verdade um meio para (ab)usar do corpo feminino e em situação de vulnerabilidade. O abuso do corpo reflete um abuso da alma. Esse abuso da alma, na minha opinião, se dá metaforizado no texto, com a carne da personagem se decompondo, mas de uma maneira que só ela enxerga e sente, pois é sua alma, seu espírito e consciência que relembram a ela, a todo instante, todas “as operações e averiguações” que foram realizadas, despertando ainda mais o sentimento de repulsa e medo. O que me chamou a atenção, em específico, foi a narração de uma cena, que pode ser relacionada a um fetiche sexual, a partir da linha 27 do conto, em que no meio da sala de aula, ao realizar uma prova de matemática, a personagem, e outros robôs de experimento, são invadidos por “grandes objetos cilíndricos”, que possuem um ritmo, o que faz com que sua vulva lateje, quase “como uma campainha sem som”, o que, para mim, faz alusão às pessoas que possuem consolos sexuais e, com consentimento, colocam dentro da vagina ou ânus do companheiro, e, ao longo do dia, controlam o ritmo e velocidade com que darão mais ou menos prazer a si e à pessoa que está usando. Enquanto fetiche sexual, traz prazer para ambos os envolvidos, já no conto, traz uma relação controladora entre os médicos e os usados, e que desperta medo, podendo ser o grande “gatilho da destruição”, já que desperta na personagem lembranças de uma primeira infância repleta de operações, que são as causas de sua decomposição. Decomposição sentimental do ser. Além disso, podemos considerar, ao final do texto de Carbonieri, que esta decomposição pode estar ligada ao fato da personagem não se reconhecer com o que os médicos a transformaram, não se identificar com aquele corpo e com a genitália que lhe impuseram.

Carla Renck Martins