Comentário sobre o poema “Entraves”

O comentário sobre o poema “Entraves” de Divanize Carbonieri, postado logo abaixo, foi escrito pelos alunos Biafra Reis de Oliveira, Daiany Marques da Costa, Iuri de Souza Cunha e Mayara Gomes do Socorro e apresentado dentro das atividades da disciplina “Crítica literária”, ministrada pela professora e escritora Clarissa Loureiro na Universidade de Pernambuco (UPE), em 03/12/2019.

 

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O presente trabalho pretende fazer uma análise fenomenológica com foco na teoria da recepção e com a tentativa de aplicar esse método ao texto “Entraves” de Divanize Carbonieri. Desse modo, o contexto histórico concreto da obra literária, seu autor e as condições de produção são ignorados. A crítica fenomenológica visa uma leitura totalmente imanente do texto. O próprio conteúdo é reduzido a uma pura materialização da consciência do escritor: todos os aspectos estilísticos e semânticos são percebidos como partes orgânicas de um todo complexo, do qual a essência unificadora é a mente do autor.

Enquanto sujeitos leitores, o nosso objetivo é buscar preencher as lacunas e explicitar os subtextos. Nessa análise, trataremos os signos como plurivalentes e polifônicos, desfocando de todo o contexto sócio – histórico da autora e considerando apenas o nosso. É uma simples recepção passiva do texto a favor de uma dada interpretação.

De acordo com Roman Ingarden, uma obra literária não pode ser captada totalmente, pois ela irá considerar as atribuições do leitor. O texto é, portanto, composto de lacunas que ganharão formas a partir de cada interpretação. Dessa forma, o poema “Entraves” direciona a resolução de enigmas através de uma leitura densa, com uma linguagem marcada de implícitos. Nessa visão, compete ao leitor encarar o texto poético em sua essência desafiadora, como uma “hemorragia fluida” que não cansa de sangrar. Trata-se do “completo sequestro da sanidade”, pois para ser poeta é preciso ser Gauche, tal como apresenta Drummond em muitos de seus poemas. Ser Gauche é lançar-se no desafio de se inquietar, provocar e dizer nas entrelinhas. É como o espaço “que arruína para sempre toda a chance”, porque as chances se esvaem no confronto com a realidade de quem não busca captar as palavras, pois as palavras dominam o mundo e são os hiatos que queremos desvendar.

“Entrave” significa travamento, e esta é a palavra chave que atribui sentido ao poema. O texto intitulado “Entraves” de Divanize Carbonieri retrata a vida frenética de muitas pessoas. A rotina carregada de empecilhos, o cansaço que nos envolve logo após um dia árduo de trabalho e os planos que não saem da forma que idealizamos representam o impedimento de uma existência tranquila.

No texto, o cotidiano é representado por um “liquidificador”, isso porque a função do eletrodoméstico é triturar o alimento, modificando de maneira esmagadora a sua forma inicial, com a finalidade de atender uma determinada necessidade. Tal analogia faz referência ao comportamento agitado que causa no ser humano um imenso desgaste, sugando-lhe a vitalidade, em prol do atendimento às imposições do sistema.

O “liquidificador” também faz uma menção ao fato de que somos tratados como máquinas de produzir e por isso estamos condicionados a viver como tal, ligados a todo momento e com o dever de cumprir todas as obrigações.

“no afã de desligar o liquidificador deslocou o tendão de aquiles.” Esse fragmento evidencia o desejo de se pausar a inquietude da vida, mas, por outro lado, existem sentimentos como o medo e a insegurança que paralisam as decisões humanas, e são esses sentimentos que fazem uma alusão ao deslocamento do “tendão de aquiles”, já que tal rompimento provoca uma séria incapacidade de movimentar os pés e as pernas.

Podemos associar o trecho: “ao acionar o interruptor da lâmpada”, com o nascimento de um novo dia, em que todos os problemas e obstáculos devem ser encarados mais uma vez.

“tendo dilacerado a hérnia inguinal ao colidir com a máquina de lavar” expressa o aparecimento das inúmeras dificuldades no decorrer da rotina, e que, ainda assim, devemos estar aptos para cumprir todos os afazeres, mesmo fragilizados com isso.

O fragmento: “foi só estancar a hemorragia fluida” indica a tentativa de reprimir os embaraços que escorrem pelos dias, como o sangue que escapa das veias e artérias.

A citação: “para desarrolhar o regalo oblongo espirrando o espesso licor no olho até conter a lágrima no pó compacto”, reflete que não importa o quão desajustada esteja a nossa vida, precisamos manter a boa aparência, dando conta de todos os compromissos do cotidiano, para que possamos corresponder às expectativas que nos são impostas.

O trecho: “mais uma quina a estraçalhar seu pé um talho rasgado em plena epiderme”, mostra o surgimento de mais tribulações. “estraçalhar seu pé”, faz uma alusão ao abalo do equilíbrio. Assim como o pé é a base para o sustento do corpo, o autocontrole é o alicerce que suporta os pesares, e quando esse firmamento é desestruturado, as dificuldades começam a ganhar domínio e poder sobre quem somos, passando a usurpar as nossas energias, por isso o termo “epiderme”, cuja principal função é absorver substâncias.

“não é qualquer falha de caráter que torna arrastado o existir por entre trastes é o completo sequestro da sanidade que arruína para sempre toda a chance de se desentulhar os últimos entraves.” Esse trecho enfatiza que não é a falta de uma boa índole que justifica uma vida desagradável e cheia de dificuldades, mas sim a ausência de sanidade causada pelo excesso de problemas que impedem a solução dos últimos entraves.

 

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O poema “Entraves” pode ser lido aqui: https://www.divanizecarbonieri.com.br/entraves-poema/