Comentário de Tereza Andrade sobre “Grande depósito de bugigangas”

O comentário a seguir foi escrito pela editora Tereza Andrade, que o publicou em suas redes sociais e que gentilmente permitiu que ele fosse reproduzido aqui.

 

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Desde o momento que abri o pacote trazido pelo correio associei a imagem da capa do livro, Grande depósito de bugigangas, ao primeiro Barateiro da Primavera de São José, sediado em Curralinho, do negociante forte, Seo Assis Wababa, marido de dona Abadia e pai de Rosa’uarda, eles todos turcos. Armazém grande, de tudo comerciavam, conforme descrito no Grande Sertão: Veredas, JGR. O livro de Divanize Carbonieri me acompanha já há alguns meses, sempre leio poesia antes de dormir e os armazéns se misturaram com as vendas da minha infância e a Loja do Allaadim do último livro que li, O livro negro, do Orhan Pamuk.

Ledo engano. Os poemas de Grande depósito de bugigangas são apenas uma imagem que sintetiza o sentido do livro. Ele trata das coisas vivas. Aqueles instantes capturados pelas sensações no corpo. Corpo desengonçado, desgraçado, no meio uma chaga; lampejo de pensamento, sopro de respiração, cenho febril, gota gorda de suor pingando, cabeça no plexo, cansaço; mordaça que trava o verso, pulsar ávido da mão, lembrança que alucina; pedaços de alegrias rompidas, sufoco escapar pelas lacunas e inundar o fosso. Bala no coração cambaleia. Dor de um é faina de outros.

Vivos também são os gafanhotos, carcaça verde; gatos de língua rugosa acariciam o espírito; lobos em matilha protegem velhos, crianças e jovens; Sucuri hiberna na água; crina de égua é trançada na invernada; gata, pantera negra tem orelha prateada e as formigas são voadoras. Periquitos, cachorros e urubus convivem no mesmo espaço com crianças sem casa após um despejo.

Vivas são as árvores e plantas: Gérberas e margaridas, girassóis e petúnias; Mexerica, bergamota, mandioca e maxixe. Palavra é lavoura. Quanto mais se lavra, mais dela se retira a crosta. Cachos de açucena. Figo pendurado no ramo. Pacifico.

Como pode um livro tão pequeno contar uma história tão grande?

E se fossemos uma indígena, inconteste alegria, uma iara fagueira, algas nas madeixas?
Uma Janaína tupinambá, sentinela da aurora? Uma Valquíria guerreira? Ou a moira anciã, fiandeira de fados, cerzideira de afetos, campeã dos desvalidos?

Do que precisaríamos para viver?

Certamente não de vidros, cobres, fuzis, e-mails, trilho e vagão de trem, parafuso, sarrafo e prateleira; não de bule branco, tampo de laca, tabuleiro de gamão, mesa de mogno, bandeja carmim, vitrais em palacetes; nem do cobre com azinhavre, vinho tinto, azeitonas, picles e azeite. Não de joias lapidadas, caixas de brinquedos, frascos de alfazema, camareiras, tiras de borracha, lâmpadas incandescentes, hastes de tungstênio, lâminas, tintas, grafites e asfalto. Não de stents de pontes de safena ou de ogiva termonuclear.
Mas isso foi antes dos príncipes tiranos chegarem, quando abatiam e caçavam animais, tombavam árvores gigantes. Roubaram o ouro, minérios e seguem roubando: águas, rios, terra.

A nós, viventes, palafitas e barracos em corpos frágeis, restam bugigangas. Badulaques: crucifixo, amuleto, mantra de prosperidade, padroeiro protetor. Não: o escapulário no cordão não adianta nada.

É uma sabotagem para o espírito inventariante catalogar. Não quero tudo. Quero uma parte, apenas uma fração, mas o outro tem o todo. As portas se cerram atrás de outras. Bastava o corredor. Os triunfantes desfilam, alegre comitiva, toda prata e ouro rebrilham. Nós somos os derrotados e esquecidos.

 

Empório

no empório de sonhos enfeixados
estão os mascates e os compradores
barganhando itens enferrujados
produtos fajutos de contrabando
espólios de incontáveis pelejas
arrancados dos campos de batalha
e dos corpos dos inimigos derrotados
despojos de guerras sanguinolentas
agora emperrados em gôndolas
desse grande depósito de bugigangas
ilusões empoeiradas à escolha
de todos os catadores de destroços
que emprestam esforços
para a recolha dos cacos de sonhos
que serão partilhados por loucos
e sãos até que se pereça o tempo.

Divanize Carbonieri
Grande depósito de bugigangas
Editora Carlini Caniato, 2018

(https://loja.tantatinta.com.br/produto/grande-deposito-de-bugigangas/)

Quase tudo que compõe o texto foi retirado do livro. Apenas costurei uma síntese para mim, para capturar melhor o que dele está comigo.

 

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Tereza Andrade é bacharel em direito e publisher Lamparina (http://www.lamparina.com.br/).