Comentário de Graziela Maria Lisboa Pinheiro sobre o conto “Fia”

A professora escritora Graziela Maria Lisboa Pinheiro gentilmente enviou o comentário abaixo sobre o conto “Fia” de Divanize Carbonieri, presente no livro Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2020). Para adquirir o livro: (https://loja.tantatinta.com.br/produto/passagem-estreita/).

 

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Para começar, adorei o conto “Fia”, achei incrível. Mas além disso, vou destacar alguns aspectos para comentar. Um dos mais importantes é o quanto a gente quer continuar a ler algo que começou: isso se mantém firme no decorrer do texto. Eu li o conto inteiro e, para mim, essa vontade de continuar avançando esteve presente o tempo todo. A que se deveu tal vontade? Principalmente ao fato de eu querer ver aonde aquilo ia dar, por conta da dramaticidade da narrativa, da insistência no quanto a personagem é feia, no quanto ela não vale nada, no caos que ela vivencia.

Prosseguindo, também é muito interessante a voz narrativa, que se dá em terceira pessoa, mas emitindo a própria opinião sobre a personagem. É curioso que a opinião da narradora é igual à opinião que a personagem tem de si mesma. A questão da narradora é muito intrigante porque você não conta, em momento algum, quem ela é e o que tem a ver com a protagonista. A meu ver, a voz narrativa se destacou de forma bastante positiva na trama.

Percebi ainda que é um conto calcado em dois pontos principais. Primeiro, é uma história com começo, meio e fim, sem o ser exatamente, porque parece mais uma cena da vida dela, diferente, por exemplo, do conto “Correnteza”, também presente em Passagem estreita, que apresenta de forma mais concreta um começo, meio e fim. Em “Fia”, vemos apenas um fragmento, uma cena da trajetória da personagem naquele dia, mas é uma cena tão poderosa que justifica, em si, o narrar daquele episódio. Então, uma cena pode ser um conto: isso é algo que me chamou bastante a atenção.

O segundo ponto é o caráter visual que percebo em suas narrativas de modo geral, é um poder de evocar sensações. Lendo “Fia”, consegui imaginar a protagonista andando por uma rua de uma grande cidade, um local de comércio popular, como o Brás em São Paulo, entrando num armarinho horrível, num dia de calor infernal. Sem você se demorar na descrição, foi sendo formada em minha cabeça essa imagem. Dessa forma, destaco esse leque de aspectos importantes na construção narrativa desse conto.

 

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Graziela Maria Pinheiro Lisboa é professora, com doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo, e escritora.