Blog

Comentário de Tálita Fernanda sobre o poema “Serena”

A estudante Tálita Fernanda enviou gentilmente o comentário abaixo sobre o poema “Serena” de Divanize Carbonieri, presente no livro Grande depósito de bugigangas (2018). Para ler o poema: (https://www.divanizecarbonieri.com.br/serena-poema/). Para adquirir o livro: (https://loja.tantatinta.com.br/produto/grande-deposito-de-bugigangas/).

 

***

 

O poema “Serena” de Divanize Carbonieri transmite a serenidade e a confiança como características importantes no relacionamento humano com os animais. A poesia realiza, entre o suspiro e o sussurro, a magia dos sonhos de um futuro mais feliz, quem sabe.

 

*

 

Tálita Fernanda é aluna concluinte do Ensino Médio da Rede Estadual de Ensino em Mato Grosso, mais precisamente, da Escola Patriarca da Independência, em Tangára da Serra.

 

Comentário de Tereza Andrade sobre “Grande depósito de bugigangas”

O comentário a seguir foi escrito pela editora Tereza Andrade, que o publicou em suas redes sociais e que gentilmente permitiu que ele fosse reproduzido aqui.

 

***

 

Desde o momento que abri o pacote trazido pelo correio associei a imagem da capa do livro, Grande depósito de bugigangas, ao primeiro Barateiro da Primavera de São José, sediado em Curralinho, do negociante forte, Seo Assis Wababa, marido de dona Abadia e pai de Rosa’uarda, eles todos turcos. Armazém grande, de tudo comerciavam, conforme descrito no Grande Sertão: Veredas, JGR. O livro de Divanize Carbonieri me acompanha já há alguns meses, sempre leio poesia antes de dormir e os armazéns se misturaram com as vendas da minha infância e a Loja do Allaadim do último livro que li, O livro negro, do Orhan Pamuk.

Ledo engano. Os poemas de Grande depósito de bugigangas são apenas uma imagem que sintetiza o sentido do livro. Ele trata das coisas vivas. Aqueles instantes capturados pelas sensações no corpo. Corpo desengonçado, desgraçado, no meio uma chaga; lampejo de pensamento, sopro de respiração, cenho febril, gota gorda de suor pingando, cabeça no plexo, cansaço; mordaça que trava o verso, pulsar ávido da mão, lembrança que alucina; pedaços de alegrias rompidas, sufoco escapar pelas lacunas e inundar o fosso. Bala no coração cambaleia. Dor de um é faina de outros.

Vivos também são os gafanhotos, carcaça verde; gatos de língua rugosa acariciam o espírito; lobos em matilha protegem velhos, crianças e jovens; Sucuri hiberna na água; crina de égua é trançada na invernada; gata, pantera negra tem orelha prateada e as formigas são voadoras. Periquitos, cachorros e urubus convivem no mesmo espaço com crianças sem casa após um despejo.

Vivas são as árvores e plantas: Gérberas e margaridas, girassóis e petúnias; Mexerica, bergamota, mandioca e maxixe. Palavra é lavoura. Quanto mais se lavra, mais dela se retira a crosta. Cachos de açucena. Figo pendurado no ramo. Pacifico.

Como pode um livro tão pequeno contar uma história tão grande?

E se fossemos uma indígena, inconteste alegria, uma iara fagueira, algas nas madeixas?
Uma Janaína tupinambá, sentinela da aurora? Uma Valquíria guerreira? Ou a moira anciã, fiandeira de fados, cerzideira de afetos, campeã dos desvalidos?

Do que precisaríamos para viver?

Certamente não de vidros, cobres, fuzis, e-mails, trilho e vagão de trem, parafuso, sarrafo e prateleira; não de bule branco, tampo de laca, tabuleiro de gamão, mesa de mogno, bandeja carmim, vitrais em palacetes; nem do cobre com azinhavre, vinho tinto, azeitonas, picles e azeite. Não de joias lapidadas, caixas de brinquedos, frascos de alfazema, camareiras, tiras de borracha, lâmpadas incandescentes, hastes de tungstênio, lâminas, tintas, grafites e asfalto. Não de stents de pontes de safena ou de ogiva termonuclear.
Mas isso foi antes dos príncipes tiranos chegarem, quando abatiam e caçavam animais, tombavam árvores gigantes. Roubaram o ouro, minérios e seguem roubando: águas, rios, terra.

A nós, viventes, palafitas e barracos em corpos frágeis, restam bugigangas. Badulaques: crucifixo, amuleto, mantra de prosperidade, padroeiro protetor. Não: o escapulário no cordão não adianta nada.

É uma sabotagem para o espírito inventariante catalogar. Não quero tudo. Quero uma parte, apenas uma fração, mas o outro tem o todo. As portas se cerram atrás de outras. Bastava o corredor. Os triunfantes desfilam, alegre comitiva, toda prata e ouro rebrilham. Nós somos os derrotados e esquecidos.

 

Empório

no empório de sonhos enfeixados
estão os mascates e os compradores
barganhando itens enferrujados
produtos fajutos de contrabando
espólios de incontáveis pelejas
arrancados dos campos de batalha
e dos corpos dos inimigos derrotados
despojos de guerras sanguinolentas
agora emperrados em gôndolas
desse grande depósito de bugigangas
ilusões empoeiradas à escolha
de todos os catadores de destroços
que emprestam esforços
para a recolha dos cacos de sonhos
que serão partilhados por loucos
e sãos até que se pereça o tempo.

Divanize Carbonieri
Grande depósito de bugigangas
Editora Carlini Caniato, 2018

(https://loja.tantatinta.com.br/produto/grande-deposito-de-bugigangas/)

Quase tudo que compõe o texto foi retirado do livro. Apenas costurei uma síntese para mim, para capturar melhor o que dele está comigo.

 

*

 

Tereza Andrade é bacharel em direito e publisher Lamparina (http://www.lamparina.com.br/).

 

 

Seriguela (poema)

O poema “Seriguela” de Divanize Carbonieri faz parte do livro A ossatura do rinoceronte, que pode ser adquirido aqui: (https://www.editorapatua.com.br/produto/112588/a-ossatura-do-rinoceronte-de-divanize-carbonieri).

 

***

 

SERIGUELA

 

se na seiva da árvore de seriguela

existe na verdade um sangue valente

que avança pelos veios aos gorgotões

na gente sã e azeitonada dos sertões

saraiva por dentro a própria lava ardente

fazendo ferver a saliva na goela

o suor valioso brota das espáduas

de quem empurra a pá na terra endurecida

os merecedores terão seu descanso

mesmo que tudo ainda pareça sem senso

há de ter boa paga para tão dura lida

alegre refrigério para penas tão árduas

 

Comentário de Carlos Machado sobre o livro “Passagem estreita”

O comentário a seguir foi redigido pelo escritor Carlos Machado sobre o livro de contos Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2019) de Divanize Carbonieri.

 

***

 

Seus contos são muito bem escritos, domínio linguístico total, fluidez. Lindo. Imagens fortíssimas, claras, poéticas, bonitas. “Tramas” é perfeito. Lindo. Gosto muito quando você é menos engajada (mas isso é um gosto pessoal), embora concorde com a necessidade desses textos, importantíssimos para todos nós: os políticos (contra essa barbárie que vivemos), os que discutem o papel da mulher e do homem, os que explicitam as classes sociais e as disparidades econômicas, culturais etc. (“Estratagema” é incrível).

Uma observação: meus estudos em literatura sempre foram (e são) sobre o espaço. Me interesso pelo “não-lugar” (Marc Auger), pelo espaço psicológico, espaço de trânsito etc. Uma cidade (no meu caso Curitiba) mítica. Uma geografia psicológica/temporal/não definida por espaços dos mapas oficiais… ou seja, sua Cuiabá é o que há de melhor nesse livro. A forma como você lida com os espaços e tempo. Maravilha, Carbonieri. Feliz de ter “descoberto” sua literatura, finalmente.

 

*

 

Carlos Machado nasceu em Curitiba, em 1977. É escritor, músico e professor de literatura e línguas estrangeiras. Publicou os livros A Voz do outro (contos 2004, 7Letras), Nós da província: diálogo com o carbono (contos 2005, 7Letras), Balada de uma retina sul-americana (novela 2006, 7Letras), Poeira fria (novela 2012, Arte & Letra), Passeios (contos 2016, 7Letras), Esquina da minha rua (novela 2018, 7Letras) e Era o vento (contos 2019, Ed. Patuá). Tem contos e outros textos publicados em diversas revistas e jornais literários (Revista Oroboro, Revista Ficções, Revista Ideias, Revista Philos, Revista Arte e Letra, Jornal Rascunho, Jornal Cândido, Jornal RevelO, Gazeta do Povo etc.), participou das antologias “48 Contos Paranaenses”, organizada por Luiz Ruffato e “Mágica no Absurdo”, organizada para o evento “Curitiba Literária 2018”, curadoria de Rogério Pereir. Integrou a lista de finalistas do concurso Off Flip 2019 com o conto “Renúncia”. Fundou a banda Sad Theory, participando dos discos The Lady and the torch (2002), A Madrigal of sorrow (2004), Biomechanical (2006) e Descrítica patológica (2012). Em 2008, iniciou carreira musical solo, rendendo os álbuns Tendéu (2008), Samba portátil (2010), Longe (2012), o DVD ao vivo (Teatro Guaíra) Longe e outras canções (2012), o trabalho em espanhol Los amores de paso (2013), Bárbara (2015) e DESencontro (2017), seu disco mais recente.