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Comentário de Camila Santos sobre o conto “Fia”

A estudante Camila Santos enviou gentilmente o comentário abaixo sobre o conto “Fia” de Divanize Carbonieri, presente em Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2019).

 

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O conto “Fia” que abre o livro Passagem Estreita coloca o leitor mais jovem diante de um embaraço. Estamos acostumados a ler contos e histórias com protagonistas perfeitinhas envolvidas em conflitos às vezes comuns à nossa vida. Mas no conto “Fia” nos deparamos com uma protagonista diferente, ela é puro sofrimento. Como um ser desintegrado da sociedade, a personagem é considerada estranha, e frequentemente maltratada. É como se a ela fosse negado o direito de fazer coisas simples como sair para comprar coisas porque ela não sabe, por exemplo, destinguir o valor das notas do dinheiro que leva, ela é por tudo isso julgada como um ser sem inteligência. Mas “Fia” representa na verdade muitas pessoas invisíveis em função de suas condições sociais, intelectuais ou até por ser mulher e pobre num mundo tão desumano. Apesar do sofrimento, Fia sabe disfarçar a dor sem deixar que toda a frieza e maldade com que é tratada prejudique a sua essência.

 

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Camila Santos é aluna da escola Estadual Patriarca da Independência, estudante do Ensino Médio inovador.

 

Comentário de Maria Eduarda da Silva Brito sobre o conto “Mesa-redonda”

O comentário a seguir foi enviado pela estudante Maria Eduarda da Silva Brito sobre o conto “Mesa-redonda”, presente no livro Passagem estreita (2019) de Divanize Carbonieri. Para adquirir o livro, clique aqui: (https://loja.tantatinta.com.br/produto/passagem-estreita/).

 

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O conto “Mesa Redonda” da escritora Divanize Carbonieri, como todos os contos do livro Passagem estreita, captura o leitor desde o início. Nesse, a narrativa é tecida em torno do  relato de uma mulher inconformada com a  forma do próprio corpo, por ver nele uma deformação, porém, essa deformidade somente  se dá na comparação com  outras mulheres.

Ela confessa uma guerra constante com sua imagem, evitando fotos, espelhos e na recusa  de olhar para si mesma, por exemplo, na intimidade do banho. Em seu registro no conto, ela pontua diversos defeitos em si. Em contraposição, na imagem da professora que a acompanha, só percebe elogios: magra, linda, perfeita, de maneira que a atenção de todos se voltam para a professora,  principalmente na hora da apresentação. Assim, sempre que alguém a elogia ela julga que se trata de ironia, cuja intenção é tranquilizá-la a respeito da própria feiura. Dessa forma, o conto propõe várias questões, entre elas, o atendimento a um mundo em que os padrões de beleza ditam as regras, nas quais especialmente as mulheres precisam se encaixar, isto é, corresponder a certas características, como ser magra, loira e, de preferência, ter olhos verdes ou azuis. O conto propicia essa reflexão, suscitando-nos a pensar até que ponto isso é  medida para o bem-estar ou bem sentir. A sociedade, contudo, não leva em conta quantas pessoas são infelizes em função  desses padrões. A leitura do conto sensibiliza e faz perceber os desafios que ainda precisam ser superados, a começar por esse, deixar as pessoas serem felizes do jeito que elas são ou se sentem bem.

O livro como um todo apresenta ao leitor menos experiente o desafio de pensar e entender a linguagem, mas as suas diferentes histórias contribuem como ponto de reflexão, portanto, ele torna-se uma leitura imprescindível, especialmente para os jovens.

 

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Maria Eduarda da Silva Brito é aluna do 2° ano do Ensino Médio da escola Patriarca da Independência da rede estadual de Mato Grosso, no município de Tangará da Serra. Tem 16 anos e gosta de ler em seu tempo livre. Nos últimos meses, está se dedicando principalmente à literatura mato-grossense. 

 

 

Comentário de Maria Cristina da Silva sobre o conto “Fia”

O comentário a seguir sobre o conto “Fia” (do livro Passagem estreita) foi escrito e gentilmente enviado pela artista plástica Maria Cristina da Silva (Cris Silva). O desenho que ilustra esta postagem também é de autoria dela.

 

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Ler o conto “FIA” foi como um golpe no estômago, muito dolorido. A autora nos coloca em contato com áreas da mente pouco exploradas, induz a questionar. Durante a leitura a falta de empatia e a aspereza sufoca, dá vontade de espernear. Lembro de climas vividos em alguma obra de Plínio Marcos. Sinto-me de mãos atadas. Necessito chacoalhar o narrador e convencê-lo a ouvir as próprias palavras, para ver se consegue se colocar no lugar da menina. Mas ele segue em suas descrições  cruéis. Os dois personagens que se relacionam com a heroína do conto são igualmente deploráveis e só resta ao leitor entrar na pele da criança renegada ao desamparo e olhar por seus olhos, que, apesar da dificuldade  em interpretação, ainda é capaz de, no seu íntimo, agradecer a parca parte desse latifúndio que recebe em vida.

 

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Maria Cristina da Silva desenha desde criança. Estudou Artes Plásticas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Interessada por Cultura Afrobrasileira. Foi professora e atualmente trabalha em uma Biblioteca. Vive com sua filha adolescente e três gatinhos em Osasco, Grande São Paulo, Brasil.

 

Comentário de Graziela Maria Lisboa Pinheiro sobre o conto “Fia”

A professora escritora Graziela Maria Lisboa Pinheiro gentilmente enviou o comentário abaixo sobre o conto “Fia” de Divanize Carbonieri, presente no livro Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2020). Para adquirir o livro: (https://loja.tantatinta.com.br/produto/passagem-estreita/).

 

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Para começar, adorei o conto “Fia”, achei incrível. Mas além disso, vou destacar alguns aspectos para comentar. Um dos mais importantes é o quanto a gente quer continuar a ler algo que começou: isso se mantém firme no decorrer do texto. Eu li o conto inteiro e, para mim, essa vontade de continuar avançando esteve presente o tempo todo. A que se deveu tal vontade? Principalmente ao fato de eu querer ver aonde aquilo ia dar, por conta da dramaticidade da narrativa, da insistência no quanto a personagem é feia, no quanto ela não vale nada, no caos que ela vivencia.

Prosseguindo, também é muito interessante a voz narrativa, que se dá em terceira pessoa, mas emitindo a própria opinião sobre a personagem. É curioso que a opinião da narradora é igual à opinião que a personagem tem de si mesma. A questão da narradora é muito intrigante porque você não conta, em momento algum, quem ela é e o que tem a ver com a protagonista. A meu ver, a voz narrativa se destacou de forma bastante positiva na trama.

Percebi ainda que é um conto calcado em dois pontos principais. Primeiro, é uma história com começo, meio e fim, sem o ser exatamente, porque parece mais uma cena da vida dela, diferente, por exemplo, do conto “Correnteza”, também presente em Passagem estreita, que apresenta de forma mais concreta um começo, meio e fim. Em “Fia”, vemos apenas um fragmento, uma cena da trajetória da personagem naquele dia, mas é uma cena tão poderosa que justifica, em si, o narrar daquele episódio. Então, uma cena pode ser um conto: isso é algo que me chamou bastante a atenção.

O segundo ponto é o caráter visual que percebo em suas narrativas de modo geral, é um poder de evocar sensações. Lendo “Fia”, consegui imaginar a protagonista andando por uma rua de uma grande cidade, um local de comércio popular, como o Brás em São Paulo, entrando num armarinho horrível, num dia de calor infernal. Sem você se demorar na descrição, foi sendo formada em minha cabeça essa imagem. Dessa forma, destaco esse leque de aspectos importantes na construção narrativa desse conto.

 

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Graziela Maria Pinheiro Lisboa é professora, com doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo, e escritora.