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    Sobre Mim

    Divanize Carbonieri é doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, atuando como professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). É autora dos livros de poesia “Entraves” (Carlini & Caniato, 2017), agraciado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura, “Grande depósito de bugigangas” (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2017, “A ossatura do rinoceronte” (2020) e “Furagem” (2020), além da coletânea de contos “Passagem estreita” (2019), selecionada pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2018. No Prêmio Off Flip, foi finalista na categoria poesia nas edições de 2018 e 2019, e segunda colocada na categoria conto na edição de 2019. Também foi finalista no 3o Concurso da Editora Lamparina Luminosa em 2016. Atua ainda como tradutora, tendo participado da tradução de “Hind Swaraj: autogoverno da Índia de Mohandas Gandhi” e “100 Grandes poemas da Índia”. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto e integra o Coletivo Maria Taquara, ligado ao Mulherio das Letras – MT.

    PRODUÇÃO ACADÊMICA

    Livros, capítulos e artigos acadêmicos.

    PRODUÇÃO LITERÁRIA

    Livros, poemas e contos.

    FORTUNA CRÍTICA

    Resenhas e ensaios escritos por terceiros.

    "na raiz de uma mangueira
    todo radical é como uma rima
    que irradia o tema da grandeza"

    (D. C.)

    Posts do Blog

    Comentário de Graziela Maria Lisboa Pinheiro sobre o conto “Fia”

    A professora escritora Graziela Maria Lisboa Pinheiro gentilmente enviou o comentário abaixo sobre o conto “Fia” de Divanize Carbonieri, presente no livro Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2020). Para adquirir o livro: (https://loja.tantatinta.com.br/produto/passagem-estreita/).

     

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    Para começar, adorei o conto “Fia”, achei incrível. Mas além disso, vou destacar alguns aspectos para comentar. Um dos mais importantes é o quanto a gente quer continuar a ler algo que começou: isso se mantém firme no decorrer do texto. Eu li o conto inteiro e, para mim, essa vontade de continuar avançando esteve presente o tempo todo. A que se deveu tal vontade? Principalmente ao fato de eu querer ver aonde aquilo ia dar, por conta da dramaticidade da narrativa, da insistência no quanto a personagem é feia, no quanto ela não vale nada, no caos que ela vivencia.

    Prosseguindo, também é muito interessante a voz narrativa, que se dá em terceira pessoa, mas emitindo a própria opinião sobre a personagem. É curioso que a opinião da narradora é igual à opinião que a personagem tem de si mesma. A questão da narradora é muito intrigante porque você não conta, em momento algum, quem ela é e o que tem a ver com a protagonista. A meu ver, a voz narrativa se destacou de forma bastante positiva na trama.

    Percebi ainda que é um conto calcado em dois pontos principais. Primeiro, é uma história com começo, meio e fim, sem o ser exatamente, porque parece mais uma cena da vida dela, diferente, por exemplo, do conto “Correnteza”, também presente em Passagem estreita, que apresenta de forma mais concreta um começo, meio e fim. Em “Fia”, vemos apenas um fragmento, uma cena da trajetória da personagem naquele dia, mas é uma cena tão poderosa que justifica, em si, o narrar daquele episódio. Então, uma cena pode ser um conto: isso é algo que me chamou bastante a atenção.

    O segundo ponto é o caráter visual que percebo em suas narrativas de modo geral, é um poder de evocar sensações. Lendo “Fia”, consegui imaginar a protagonista andando por uma rua de uma grande cidade, um local de comércio popular, como o Brás em São Paulo, entrando num armarinho horrível, num dia de calor infernal. Sem você se demorar na descrição, foi sendo formada em minha cabeça essa imagem. Dessa forma, destaco esse leque de aspectos importantes na construção narrativa desse conto.

     

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    Graziela Maria Pinheiro Lisboa é professora, com doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo, e escritora.

     

     

    Comentário de Tálita Fernanda sobre o poema “Serena”

    A estudante Tálita Fernanda enviou gentilmente o comentário abaixo sobre o poema “Serena” de Divanize Carbonieri, presente no livro Grande depósito de bugigangas (2018). Para ler o poema: (https://www.divanizecarbonieri.com.br/serena-poema/). Para adquirir o livro: (https://loja.tantatinta.com.br/produto/grande-deposito-de-bugigangas/).

     

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    O poema “Serena” de Divanize Carbonieri transmite a serenidade e a confiança como características importantes no relacionamento humano com os animais. A poesia realiza, entre o suspiro e o sussurro, a magia dos sonhos de um futuro mais feliz, quem sabe.

     

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    Tálita Fernanda é aluna concluinte do Ensino Médio da Rede Estadual de Ensino em Mato Grosso, mais precisamente, da Escola Patriarca da Independência, em Tangára da Serra.

     

    Comentário de Tereza Andrade sobre “Grande depósito de bugigangas”

    O comentário a seguir foi escrito pela editora Tereza Andrade, que o publicou em suas redes sociais e que gentilmente permitiu que ele fosse reproduzido aqui.

     

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    Desde o momento que abri o pacote trazido pelo correio associei a imagem da capa do livro, Grande depósito de bugigangas, ao primeiro Barateiro da Primavera de São José, sediado em Curralinho, do negociante forte, Seo Assis Wababa, marido de dona Abadia e pai de Rosa’uarda, eles todos turcos. Armazém grande, de tudo comerciavam, conforme descrito no Grande Sertão: Veredas, JGR. O livro de Divanize Carbonieri me acompanha já há alguns meses, sempre leio poesia antes de dormir e os armazéns se misturaram com as vendas da minha infância e a Loja do Allaadim do último livro que li, O livro negro, do Orhan Pamuk.

    Ledo engano. Os poemas de Grande depósito de bugigangas são apenas uma imagem que sintetiza o sentido do livro. Ele trata das coisas vivas. Aqueles instantes capturados pelas sensações no corpo. Corpo desengonçado, desgraçado, no meio uma chaga; lampejo de pensamento, sopro de respiração, cenho febril, gota gorda de suor pingando, cabeça no plexo, cansaço; mordaça que trava o verso, pulsar ávido da mão, lembrança que alucina; pedaços de alegrias rompidas, sufoco escapar pelas lacunas e inundar o fosso. Bala no coração cambaleia. Dor de um é faina de outros.

    Vivos também são os gafanhotos, carcaça verde; gatos de língua rugosa acariciam o espírito; lobos em matilha protegem velhos, crianças e jovens; Sucuri hiberna na água; crina de égua é trançada na invernada; gata, pantera negra tem orelha prateada e as formigas são voadoras. Periquitos, cachorros e urubus convivem no mesmo espaço com crianças sem casa após um despejo.

    Vivas são as árvores e plantas: Gérberas e margaridas, girassóis e petúnias; Mexerica, bergamota, mandioca e maxixe. Palavra é lavoura. Quanto mais se lavra, mais dela se retira a crosta. Cachos de açucena. Figo pendurado no ramo. Pacifico.

    Como pode um livro tão pequeno contar uma história tão grande?

    E se fossemos uma indígena, inconteste alegria, uma iara fagueira, algas nas madeixas?
    Uma Janaína tupinambá, sentinela da aurora? Uma Valquíria guerreira? Ou a moira anciã, fiandeira de fados, cerzideira de afetos, campeã dos desvalidos?

    Do que precisaríamos para viver?

    Certamente não de vidros, cobres, fuzis, e-mails, trilho e vagão de trem, parafuso, sarrafo e prateleira; não de bule branco, tampo de laca, tabuleiro de gamão, mesa de mogno, bandeja carmim, vitrais em palacetes; nem do cobre com azinhavre, vinho tinto, azeitonas, picles e azeite. Não de joias lapidadas, caixas de brinquedos, frascos de alfazema, camareiras, tiras de borracha, lâmpadas incandescentes, hastes de tungstênio, lâminas, tintas, grafites e asfalto. Não de stents de pontes de safena ou de ogiva termonuclear.
    Mas isso foi antes dos príncipes tiranos chegarem, quando abatiam e caçavam animais, tombavam árvores gigantes. Roubaram o ouro, minérios e seguem roubando: águas, rios, terra.

    A nós, viventes, palafitas e barracos em corpos frágeis, restam bugigangas. Badulaques: crucifixo, amuleto, mantra de prosperidade, padroeiro protetor. Não: o escapulário no cordão não adianta nada.

    É uma sabotagem para o espírito inventariante catalogar. Não quero tudo. Quero uma parte, apenas uma fração, mas o outro tem o todo. As portas se cerram atrás de outras. Bastava o corredor. Os triunfantes desfilam, alegre comitiva, toda prata e ouro rebrilham. Nós somos os derrotados e esquecidos.

     

    Empório

    no empório de sonhos enfeixados
    estão os mascates e os compradores
    barganhando itens enferrujados
    produtos fajutos de contrabando
    espólios de incontáveis pelejas
    arrancados dos campos de batalha
    e dos corpos dos inimigos derrotados
    despojos de guerras sanguinolentas
    agora emperrados em gôndolas
    desse grande depósito de bugigangas
    ilusões empoeiradas à escolha
    de todos os catadores de destroços
    que emprestam esforços
    para a recolha dos cacos de sonhos
    que serão partilhados por loucos
    e sãos até que se pereça o tempo.

    Divanize Carbonieri
    Grande depósito de bugigangas
    Editora Carlini Caniato, 2018

    (https://loja.tantatinta.com.br/produto/grande-deposito-de-bugigangas/)

    Quase tudo que compõe o texto foi retirado do livro. Apenas costurei uma síntese para mim, para capturar melhor o que dele está comigo.

     

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    Tereza Andrade é bacharel em direito e publisher Lamparina (http://www.lamparina.com.br/).

     

     

    Seriguela (poema)

    O poema “Seriguela” de Divanize Carbonieri faz parte do livro A ossatura do rinoceronte, que pode ser adquirido aqui: (https://www.editorapatua.com.br/produto/112588/a-ossatura-do-rinoceronte-de-divanize-carbonieri).

     

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    SERIGUELA

     

    se na seiva da árvore de seriguela

    existe na verdade um sangue valente

    que avança pelos veios aos gorgotões

    na gente sã e azeitonada dos sertões

    saraiva por dentro a própria lava ardente

    fazendo ferver a saliva na goela

    o suor valioso brota das espáduas

    de quem empurra a pá na terra endurecida

    os merecedores terão seu descanso

    mesmo que tudo ainda pareça sem senso

    há de ter boa paga para tão dura lida

    alegre refrigério para penas tão árduas

     

    Comentário de Carlos Machado sobre o livro “Passagem estreita”

    O comentário a seguir foi redigido pelo escritor Carlos Machado sobre o livro de contos Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2019) de Divanize Carbonieri.

     

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    Seus contos são muito bem escritos, domínio linguístico total, fluidez. Lindo. Imagens fortíssimas, claras, poéticas, bonitas. “Tramas” é perfeito. Lindo. Gosto muito quando você é menos engajada (mas isso é um gosto pessoal), embora concorde com a necessidade desses textos, importantíssimos para todos nós: os políticos (contra essa barbárie que vivemos), os que discutem o papel da mulher e do homem, os que explicitam as classes sociais e as disparidades econômicas, culturais etc. (“Estratagema” é incrível).

    Uma observação: meus estudos em literatura sempre foram (e são) sobre o espaço. Me interesso pelo “não-lugar” (Marc Auger), pelo espaço psicológico, espaço de trânsito etc. Uma cidade (no meu caso Curitiba) mítica. Uma geografia psicológica/temporal/não definida por espaços dos mapas oficiais… ou seja, sua Cuiabá é o que há de melhor nesse livro. A forma como você lida com os espaços e tempo. Maravilha, Carbonieri. Feliz de ter “descoberto” sua literatura, finalmente.

     

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    Carlos Machado nasceu em Curitiba, em 1977. É escritor, músico e professor de literatura e línguas estrangeiras. Publicou os livros A Voz do outro (contos 2004, 7Letras), Nós da província: diálogo com o carbono (contos 2005, 7Letras), Balada de uma retina sul-americana (novela 2006, 7Letras), Poeira fria (novela 2012, Arte & Letra), Passeios (contos 2016, 7Letras), Esquina da minha rua (novela 2018, 7Letras) e Era o vento (contos 2019, Ed. Patuá). Tem contos e outros textos publicados em diversas revistas e jornais literários (Revista Oroboro, Revista Ficções, Revista Ideias, Revista Philos, Revista Arte e Letra, Jornal Rascunho, Jornal Cândido, Jornal RevelO, Gazeta do Povo etc.), participou das antologias “48 Contos Paranaenses”, organizada por Luiz Ruffato e “Mágica no Absurdo”, organizada para o evento “Curitiba Literária 2018”, curadoria de Rogério Pereir. Integrou a lista de finalistas do concurso Off Flip 2019 com o conto “Renúncia”. Fundou a banda Sad Theory, participando dos discos The Lady and the torch (2002), A Madrigal of sorrow (2004), Biomechanical (2006) e Descrítica patológica (2012). Em 2008, iniciou carreira musical solo, rendendo os álbuns Tendéu (2008), Samba portátil (2010), Longe (2012), o DVD ao vivo (Teatro Guaíra) Longe e outras canções (2012), o trabalho em espanhol Los amores de paso (2013), Bárbara (2015) e DESencontro (2017), seu disco mais recente.

    Comentário de Roberta Gasparotto sobre o conto “Mesa-redonda”

    O comentário a seguir foi enviado pela escritora Roberta Gasparotto sobre o conto “Mesa-redonda”, presente no livro Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2019), de autoria de Divanize Carbonieri.

     

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    “Mesa-redonda” é um conto forte, sensível e, principalmente, necessário. Não há como, sendo mulher, não nos identificarmos com  o profundo sentimento de rejeição da protagonista, mesmo se for pelo seu avesso: que mulher nunca se flagrou fazendo sacrifícios e perdendo um pouco de si, para agradar aos ditames alheios? Ao mesmo tempo, se formos suficientemente sinceras, além de nos identificarmos com a protagonista, também nos identificaremos – ai, que medo – com os antagonistas, que julgam, e são cheios de preconceitos. Nós todos, tão cheios de preconceitos. Sofrendo e fazendo sofrer. Tantas vezes oprimidos, tantas vezes opressores. E, para evitar cairmos nessa armadilha, ou, melhor dizendo, para sairmos dela mais cedo, já que a queda é inevitável, nada melhor do que a constante reflexão sobre os moldes que nos querem enfiar goela abaixo. Conto não apenas necessário. Urgente!

     

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    Roberta Gasparotto é gaúcha de Passo Fundo, mas reside em Brasília desde os seus quatro anos de idade. Formou-se em Psicologia e  trabalha com crianças e adolescentes vítimas de violência. É pós-graduada em Língua Portuguesa, com ênfase em produção textual, já intuindo, talvez, que seguiria no mundo da escrita. Em 2019 publicou mil mulheres cabem em mim, um romance autobibliográfico. Atualmente divide seu tempo entre trabalho, filhos e os escritos que publica nas redes sociais, como uma forma de partilhar seus anseios, angústias e questionamentos.  Além de crônicas, poemas e contos sobre assuntos diversos, possui mais de duzentos e cinquenta poemas com nomes de mulheres e está sempre aberta para novas parcerias poéticas.

     

    Uma resenha de “A ossatura do rinoceronte” por Fernando Andrade

    A resenha a seguir foi escrita por Fernando Andrade sobre o livro de poemas A ossatura do rinoceronte (Patuá, 2020) de Divanize Carbonieri, que pode ser adquirido aqui: https://www.editorapatua.com.br/produto/112588/a-ossatura-do-rinoceronte-de-divanize-carbonieri

     

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    Livro de poemas A ossatura do rinoceronte mistura de maneira harmoniosa  a tessitura do narrar e poetizar com a dinâmica social dos afetos, nos espaços. 

     

    Qual seria o espírito de uma dinâmica de uma colméia? Além de uma notável organização social, o que vemos externamente na “casa”, não necessariamente parece ser o que vai lá dentro. Esta posição entre pontos de vistas ao internalizar na nossa mente sobre o lugar do pertencimento, ao mesmo tempo, uma poética do trabalho? Abelhas produzem mel, na mesma interioridade do pertencer à casa, quando não temos uma questão nítida,  as paredes do hexágono dão um tipo de reflexo multisensorial (escrita multisensorial facetada).

    Diferentemente de nós humanos que temos lar longe da força de trabalho em um ambiente focado para este sistema operacional. A dinâmica das relações sociais foi muito bem exposta num filme, espanhol, Espírito da Colméia, que usava as abelhas e suas colméias como uma bela metáfora de como os afetos e sentimentos se motivam perante o tipo de relação social e também política que temos ao ver o que nos faz por dentro e num exercício dialético de como produzimos ações-afetos para  externalizar o mundo à nossa volta. Pensei muito nesta funções cognitivas ao ler o novo livro de poemas da poeta Divanize Carbonieri, A ossatura do Rinoceronte, editora Patuá, 2020.

    Ao meu ver, há no livro um execício dialético do cotidiano, mas numa espécie de entranha filosófica, onde o texto e seus sentidos se produzem não na latência superficial da leitura-significação, mas na velocidade das sensações do deslize espacial entre linhas verticais versos-palavras, onde para cada freaseado poético, ali, existem inúmeras caixinhas de surpresas semânticas. Dentro de cada poema há uma íntima ligação entre forma e pensamento que ora se estilhaçam ou se concentram em  imagens sonoras e visuais que nunca são nucleadas.

    Pensei meu Deus, com a poeta, faz isso? Manter todos os elos aos links, como um hipertexto de som, ritmo, dinâmica social, e reflexão sobre cada área humana do comportamento ou do saber, mas demolindo uma ideia de coesão e unidade textual. O corpo que nos forma depende de como a estrutura dos ossos acontece em cada espécie fisiológica de bicho, gente. Os alvéolos da colméia em sua ossatura, imagetizando o espaço coletivo cênico que fazem dos favos de mel, uma linda carnalidade e ao mesmo tempo – reluzente sonora e vibrátil.

     

    Significado de Alvéolo (dica de filme O espírito da colméia)

    substantivo masculino Cada uma das cavidades que formam o favo de mel das abelhas. Cavidade dos ossos maxilares em que se engasta a raiz do dente.

     

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    Fernando Andrade, 51 anos, é jornalista,  poeta, e crítico literário. Faz parte  do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel. Participa também do coletivo Clube de leitura, no qual tem dois contos em coletâneas: “Quadris” no  volume 3 e “Canteiro” no volume 4 do Clube da leitura.   Colabora na revista literária Literatura e fechadura com resenhas de livros e cd’s e entrevistas com escritores, poetas e músicos. Tem dois livros de poesia pela editora Oito e Meio, Lacan Por Câmeras Cinematográficas e Poemoemetria, e Enclave (poemas) pela Editora Patuá.   Seu poema “A cidade é um corpo” participou da exposição Poesia agora em Salvador e no Rio de Janeiro.  Lançou, em 2018,  seu quarto livro de poemas,  a perpetuação da espécie pela Editora Penalux. E acaba de lançar, no final de 2019, seu primeiro livro de contos Logaritmosentido, editora Penalux, que pode ser adquirido aqui: https://www.editorapenalux.com.br/loja/logaritmosentido

     

    Comentário de Adilson Vagner de Oliveira sobre “A ossatura do rinoceronte”

    O comentário abaixo foi escrito, nas redes sociais, pelo professor Adilson Vagner de Oliveira, que gentilmente concordou com a sua reprodução neste site. O livro A ossatura do rinoceronte pode ser adquirido aqui: https://www.editorapatua.com.br/produto/112588/a-ossatura-do-rinoceronte-de-divanize-carbonieri

     

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    Hoje foi dia de ler A ossatura do rinoceronte de Divanize Carbonieri

    Nessa obra, a voz poética se volta para a observação do cotidiano, mas de forma alguma por simples admiração ao belo. Trata-se de uma reflexão assimétrica sobre o “osso do cotidiano”, sobre as estruturas mais profundas que regem as pessoas e os animais na natureza. Despe-se o cotidiano e todos os elementos que o compõem para lançar a pergunta sobre “O que fica disso tudo?”, “O que resta dessas coisas que nos rodeiam?” A natureza do ser humano e dos animais é resgatada para se pensar a trajetória insignificante dos seres diante da magnitude do mundo e da passagem do tempo. São os ossos, o fóssil, a ossada, o diamante, enfim, a ossatura de nossa existência. O que sobra de nós? Não é beleza, não é sentimento, não é líquido. É o osso. E do cotidiano, só nos resta a mecânica natural das coisas, as estruturas de tudo que é observado, do que fica, permanece.

     

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    Adilson Vagner de Oliveira é professor de Português e Línguas Estrangeiras no Instituto Federal de Mato Grosso, Campus Tangará da Serra – MT. Possui graduação em Letras com habilitações em Português e Inglês e suas respectivas literaturas (2007), Especialização em Metodologia do Ensino (2011) e em Educação Profissional (2012). Mestre em Estudos Literários (2013). Doutorando em Ciência Política (2014) Pesquisador do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Pesquisa Pibic IFMT.

     

    Cuiabá (conto)

    O conto “Cuiabá” de Divanize Carbonieri faz parte do livro Passagem estreita (Carlini & Caniato, 2019).

     

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    CUIABÁ

     

    é tudo uma questão de geografia literária, eu sei que deveria usar os nomes das ruas de Cuiabá como cenário para essa história, mas a verdade é que me movo sem me importar com os nomes dos lugares, posso passar milhares de vezes pelas mesmas ruas sem nunca decorar seus nomes, faço cara de paisagem quando me explicam algum caminho, finjo que estou entendendo, mas não visualizo nada, uma grande parede branca é o que se forma na minha mente, não tenho a menor noção de direção, tão perdida que estou nesse mundo, nessa cidade, nesse corpo, um corpo não aterrado, que flutua solto sem estar realmente ligado a nenhuma terra, nenhum chão, nenhum espaço, eu já devia conhecer todos esses pontos de referência, tantos anos estou aqui, mas não conheço nada, e sempre foi assim em toda cidade em que morei, nunca soube me localizar, desconectada, alheada de tudo o que acontece à minha volta, quando os outros todos estão ancorados, tão felizes por estarem vivos, e eu morta por dentro, o fato é que quase não saio de casa porque todos os lugares me parecem iguais e nenhum deles me entretém, mas não é desculpa, eu deveria usar alguma geografia literária específica, ser uma autora de sua cidade, da cidade em que vive, já que isso é importante para o reconhecimento dos leitores, a nova geração que poderá ler esses contos e dizer, olha que legal, essa história se passa na mesma rua em que eu moro ou na rua da minha escola ou onde eu sempre passo, mas não, todos os lugares aqui ou quase todos estão sem nome, não especificados, é uma geografia literária genérica, e isso vai fazer com que ninguém de fato se reconheça nela, ou pode se reconhecer por acaso, por imaginar que um lugar se pareça talvez com outro conhecido, mas isso é tudo conjectura, apenas suposições, e nunca ninguém poderá afirmar com segurança, no futuro críticos dirão que o cenário desses contos pode ser a cidade em que a autora nasceu ou viveu ou morreu, mas certeza mesmo não se poderá ter, mas também é muita pretensão achar que no futuro alguém dirá alguma coisa sobre esses escritos, que alguém se importará, se no presente ninguém se importa, se não tem ninguém interessado em nada do que está sendo contado aqui, se ninguém está nem olhando nesta direção, tudo é um grande silêncio, tão acostumada que estou a fazer tudo sem ter nenhuma atenção voltada para mim, nem me importo, até acho bom porque assim posso fazer tudo exatamente do jeito que quero, inclusive sem situar nenhuma história em lugar nenhum, justamente para que ninguém venha me dizer que reconheceu o contexto, a época, a si mesmo retratado nela, não me venham aborrecer com seus problemas, mas no fundo eu queria mesmo ser uma autora cujas personagens transitam por lugares específicos, ser uma autora de Cuiabá, Cuiabá, que não é a cidade em que nasci, mas dessa nem posso contar nada, tão distantes na minha memória estão aqueles espaços perdidos para sempre, se voltar lá agora, certeza que não reconhecerei nada, nada também é exagero, sempre se reconhece alguma coisa do lugar em que se cresceu, um ditado africano diz que uma pessoa sempre retorna ao lugar em que está enterrado o seu cordão umbilical, mas é mentira, nunca vou voltar, ou talvez volte, porque é tudo a mesma coisa, tudo uma coleção de cenários para uma peça que não está sendo encenada, que não tem texto, não tem direção, não tem atores, nada, só um monte de cenários que ficam passando, o lugar sem que ninguém tenha alguma experiência nele não tem relevância, os lugares só existem porque se pode contar histórias que aconteceram neles, se não fosse isso nem nome teriam, nem lugares seriam, porque para ser um lugar tem que possibilitar que alguma ação humana ocorra nele, os animais sozinhos na selva não vivem em lugares, eles são os próprios lugares, os lugares e eles são uma coisa só, que daí não faz sentido chamar de lugar, nem sei do que dá pra chamar, mas eles também não precisam chamar de nada, lugar é só para humanos ou para bichos que estão acompanhando humanos, sempre pensei como devem se sentir os cachorros e gatos abandonados andando pela cidade, por um espaço que não é deles, que não foi feito por eles, que na verdade é bem hostil a eles, fico pensando em como seria estar por exemplo num outro planeta, zanzando no meio de uma espécie que tomou conta de tudo, que já significou tudo, e ter que viver ali, sem entender nada, sem saber o porquê daqueles marcos, daquelas divisões, daquelas organizações, tentando sobreviver da melhor maneira possível, no entanto, alguns cães parecem tão determinados em suas perambulações pela cidade, às vezes vejo um deles pelas janelas dos veículos, porque nas raríssimas vezes em que me desloco é sempre num veículo, e ele parece saber exatamente para onde vai, apressado até, e eu nunca sei para onde vou, quer dizer, claro que sei, mas também não sei, porque sou uma pessoa que não vive direito nos lugares, que paira sobre eles como uma entidade descarnada, todos eles sem sentido para mim, apenas passando diante dos meus olhos como uma película interminável, mas deve ser bom fazer as personagens subirem e descerem as ladeiras conhecidas por outras pessoas, entrarem em casas localizadas em bairros que realmente existem, ser como Jane Austen, autora de uma Inglaterra rural, de propriedades com nomes significativos, em que membros da gentry se relacionam uns com os outros, ser como Dickens, o autor de Londres, interligando bairros nobres e pobres, fazendo com que trabalhadores e ricos interajam e ocupem a cidade, ser como Balzac, com seu Rastignac trafegando por Paris cheio de sonhos de ascensão social e reconhecimento, deve ser de fato gratificante, daí a importância de uma geografia literária para se entender o desenvolvimento do romance, toda aquela discussão de que os cronotopos determinam o gênero da narrativa, cada espaço e tempo específicos engendrando seu tipo de história, tudo isso deve ser sem dúvida muito bom, mas não está ao meu alcance, infelizmente, eu sei que Cuiabá precisa de mais narrativas, principalmente de mulheres, sei que a cidade quer que se narrem as transformações ocorridas no seu centro histórico, os casarões tão antigos que hoje desabam sem que se impeça, tudo sendo demolido para virar estacionamentos e mais estacionamentos, mangueiras enormes sendo cortadas, miquinhos eletrocutados nos fios de alta tensão, sombras que já quase não existem, essas grandes cicatrizes vermelhas rasgadas no meio das avenidas para sustentar os trilhos de um meio de transporte que nos transformaria numa cidade de primeiro mundo, mas que nunca chegou, uma presença ausente do que poderíamos ter sido, uma lembrança de que fracassamos, de que não seremos mais como esperávamos, só a marca daquilo que deveria existir e não existe, como o que resta de um membro amputado, todas as árvores que foram abatidas em vão, de vez em quando colocam coqueiros no lugar, é uma cena triste vê-los esturricados ao sol, desamparados como criaturas de outro mundo num universo tórrido em que só o sol reina soberano sobre nossas cabeças, o sol e os animais, que se recusam a ser extintos e invadem as ruas de tempos em tempos, os jacarés que serpenteiam pelo asfalto fervente, as famílias de capivaras ruminando nos terrenos gramados, os tamanduás com a cauda em riste correndo pelas calçadas, era preciso contar a história desses animais como merecem, não como emblemas de uma identidade folclórica, mas pelo que são, seres de carne e osso se retorcendo nessa atmosfera febril e mutante, num último grito antes do fim, assim como as pessoas que se arrastam em seus trajetos diários do trabalho para a casa, da casa para o trabalho, nos ônibus abarrotados, em motos e bicicletas compradas a prestação justamente para escapar à falta de mobilidade, essas pessoas que podem ser tão desterradas quanto eu, que podem também não ter saudade de nada, que podem se sentir desconectadas de todas as coisas, esses humanos que estão aqui agora ninguém sabe por quê nem até quando, tentando esquecer que o esforço é inútil, que é muita humilhação para pouca paga, que o que se ama está sendo retirado aos poucos, são muitas histórias que se perderão, que jamais chegarão à superfície e que mereciam chegar, eu sei de tudo isso, mas vou falhar com você, Cuiabá, assim como já falhei antes com tantos outros, eu, que dificilmente acerto, eu, que tenho até dificuldade de sair de casa, sabem os deuses o que me custa, vou falhar com você, mas por favor entenda, veja a minha situação, como criar uma geografia literária se não se está realmente em lugar nenhum, nenhum escritor dá conta da complexidade de uma cidade, a maioria se concentra nos bairros que mais conhece ou que são mais significativos para suas narrativas, mas ainda assim têm um recorte, uma delimitação, mas para isso eu precisaria estar entranhada na vida, imersa no que os outros chamam de realidade, não estar sempre com sono, sempre prestes a despencar na inconsciência, sempre sonhando acordada, seria necessário ter uma espécie de estaca me grudando no chão, um eixo, horizontal e vertical, o corpo localizado num ponto do mapa, os pés caminhando enfiados numa terra que pulsa, mas eu vivo à deriva, em transe, sinto muito, sinto muito mesmo,

     

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    Fonte da imagem destacada: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2019/08/28/populacao-deve-aumentar-1115percent-e-cuiaba-e-a-15a-capital-com-maior-numero-de-habitantes.ghtml

     

    Fóssil (poema)

    O poema “Fóssil” de Divanize Carbonieri faz parte de A ossatura do rinoceronte (Patuá, 2020), que pode ser adquirido aqui: https://www.editorapatua.com.br/produto/112588/a-ossatura-do-rinoceronte-de-divanize-carbonieri

     

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    FÓSSIL

     

    o fóssil de mastodonte foi desenterrado ontem

    os dentes parecendo montanhas de pedra

    presas petrificadas despontando no pó

    imenso esqueleto adormecido no mundo

    a terra não esquece quem disputou sobre ela

    mantém presos nas fornalhas de seu ventre

    os restos dos magníficos mamutes gigantes

    e dos sangrentos dentes-de-sabre andarilhos

    manadas tombadas inteiras ou indivíduos

    mortos em querelas ou confrontos fatais

    ou ainda de doença pestilenta e mortífera

    sacrificados todos ao bel-prazer do destino

     

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